Sobre validação, pertencimento e paixão;
- rebecabhonn
- 16 de jan. de 2023
- 2 min de leitura
Já nas primeiras semanas do ano, ouvi, em duas situações diferentes, as seguintes frases: “é assim mesmo, todo mundo faz desse jeito,” e “é normal, é como funciona no mundo todo”.
Fiquei com isso na cabeça. Quando foi que a gente passou a acreditar que, já que todo mundo faz, significa que é o correto? Parece uma máxima da vida adulta, como um rito de passagem em que perdemos a inquietude da juventude. Já faz um tempo observo situações que trazem uma sensação estranha; é como se não houvesse um lugar em que as coisas não aconteçam de maneira defasada.
Hoje pela manhã, esbarrei com a newsletter da Camila Vidal (se você ainda não conhece, tá na hora: @movinggirls), que me trouxe uma luz frente todo esse desconforto que eu mal soube dar um nome. Ela fala:
Antigamente, na época das navegações, acreditava-se que ao chegar no horizonte, o mundo acabava. Foram necessárias pessoas corajosas o suficiente para entrar em barcos e navegar além do horizonte.
Hoje nós sabemos que depois do horizonte existe mais.
Fazer parte, ser aceita e bem-quista em uma comunidade é inerente à alma humana - somos seres sociais. Lembro sempre do Náufrago, que frente a tamanha solidão, constrói relações com um objeto inanimado e a ele atribui muito

de suas próprias características. A busca por validação, por esse abraço invisível, muitas vezes nos compartimentaliza em zonas de conforto “desconfortáveis". Nos assentamos ali e assim observamos, da distância segura do confortável casulo de acolhimento, o mundo se desenrolar sem corrermos grandes riscos. Dali, deixamos passar falas que ferem e incomodam; aprendemos a jogar sempre sob as regras do dono da bola e torna-se normal respirar fundo e engolir o que quer que te alimentem, sorrindo. Afinal, o possível ostracismo nunca valeu uma briga.

Os privilégios sociais, geralmente, são a composição da espinha dorsal desse casulo. É a partir deles que o incômodo aparece (ou não…) e se impõe tão forte, tão violento, que a única saída é, de fato, partir. Se vale a pena, é resposta de cada uma para si mesma; há caos suficiente nesses paraísos artificiais, ao ponto de despertar as inquietas e inconformadas, assim como existe a calmaria que tantas buscam. Estar do lado de dentro ou de fora pode se tornar a decisão mais difícil que tomamos em vida, mesmo frente à dura verdade: no fundo, mesmo com toda a complexidade da existência humana, sempre sabemos o que deve ser feito. Essa sabedoria pode vir a ser, casualmente, o chute final no estômago.
Se não por um desconforto visceral, um desequilíbrio em nosso âmago, o que há de nos mover? O que mais há de acontecer pra que se fragilizem os infindáveis ciclos de poder que mantém ativo e resistente o sistema bonito, casto e bem equilibrado das comunidades?

As vezes estamos tão imersas, tão apaixonadas por um conceito e uma ideia de liberdade com possibilidades inimagináveis, que esquecemos o quanto o mundo externo é adoecido. Não estamos blindadas a ele, não importa o que o nosso belo casulo ofereça, não importa o que nossa bolha diga. Red pill, blue pill. É a mesma, velha discussão. Viver sonhando a mentira de dias perfeitos ou encarar o mundo real, com todas as suas minúsculas feiurinhas... E decidir. Observadora ou jogadora? Inquieta ou conformada?


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