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Sobre o medo de errar.

Qual a última vez que você esteve em um lugar em que não era a melhor?


Qual a última vez que sentiu medo e vontade de parar, desistir, porque era tudo muito novo, muito rápido e você, muito verde?


Qual a última vez que você não soube, nem por um minuto, o que fazer?


A Mary Schmich, autora daquele viral dos anos 2000, Filtro Solar, cravou uma frase infame: Todos os dias, faça alguma coisa de que você tem medo.


Falo, aqui, sobre a experiência e minhas vivências com a dança, mas isso pode se aplicar a diversos âmbitos. Especialmente para as pessoas que são boas, muito boas no que escolheram fazer da vida, se torna estranho chegar em um ambiente em que você é a mais inexperiente, a mais perdida e a que não consegue acertar, mesmo com muito muito esforço. Aprender algo novo nos faz retornar aos primeiros passos, como se regredíssemos em vida. Com a chegada da vida adulta, é mais comum automatizarmos nossos processos diários. Particularmente, o que mais senti foi a falta do novo, daquela sensação de querer muito algo e saber que só poderia adquirir através de aprendizado e esforço. A palavra “esforço”, inclusive, ganha uma conotação péssima, depois de certa idade, devido ao sistema falido em que vivemos e ao qual diariamente sobrevivemos. Muitas de nós temos rotinas tão bizarras que só desejamos reduzir nossas lutas, aderindo à ideologia do esforço mínimo.


Há cinco anos iniciei algo novo, em terreno familiar. Dancei até os 16 anos, então uma modalidade chamada pole dance fazia sentido pra mim e não me assustou. Chegando na primeira aula, o caos! Não tinha absolutamente nada a ver com o que eu já conhecia sobre jazz, dança contemporânea, vivência em palcos e performances. Aquilo ali era outro mundo, e eu era a intrusa da vez. Nos primeiros anos da modalidade, nunca fui a melhor da turma. Esforçada, dedicada, constante? Pode se dizer que sim. Mas não a melhor, com mais facilidade, velocidade, força. E era novo, não saber nada e sentir que o que eu já sabia era insuficiente.



A primeira sensação é a frustração gigantesca de descobrir que seu corpo não obedece seus comandos tão bem quanto você pensava. Em segundo momento, a sensação de não-pertencimento e de incompreensão - big news: em primeiro momento, isso raramente tem a ver com os seus mentores -, até que, parecendo uma fagulhinha mágica presa em uma redoma de vidro quase sem oxigênio, vem a euforia de estar frente a um desafio. Começamos a falar aqui do lado bom da vida, aquele saber viver que torna tudo menos pesado, menos inflamado, e a necessidade de sermos fortes e corajosas.


O que a vida quer da gente, disse Guimarães Rosa, é coragem.


Desbravar o novo pode ser aterrorizante. Enfrentar, sozinha, novos ambientes, novas pessoas, descobrir mais sobre si… Pode ser a viagem mais eletrizante das nossas vidas, e por vezes ela consiste em atravessar a rua e começar um curso de línguas. Enviar um e-mail aceitando um emprego novo. Às vezes, até mesmo finalmente fazer aquela ligação dolorida que você tem adiado porque sabe que encerrará um ciclo seguro da sua vida. Como uma pessoa mais voltada à introspecção e um pouco resistente a mudanças, entendo e abraço o sentimento de batalha que me toma frente a novos espaços, novas relações, novidades no geral.

Não sendo nem de longe vagamente boa, meu percurso no pole começou. Eu só pensava nisso, hiperfixei. Faria tudo novamente, sem tirar nem pôr. O incômodo de errar foi o que me levantou de um processo depressivo do qual eu não me via saindo. Horas e mais horas do meu dia eram dedicadas ao pole, à minha nova paixão. Substituí vícios, mudei minha cabeça. Tudo, tudo isso por um split. Por um voo bonito, controlado na giratória. Anos depois (anos. Anos!) as coisas começaram a acontecer. Minha recompensa, hoje, foi trabalhar com o que amo, de transformar um hobby em missão de vida e finalmente acreditar em uma carreira. A recompensa veio na volta da vontade de performar, minha grande fantasia da adolescência, ainda na dança contemporânea. Me reencontrei e me reconectei comigo mesma, com meus sonhos e com meu corpo, graças à teimosia e a recusa de paralisar por medo.


Atualmente, voltei ao outro lado da corda: encarando novamente as aulas de dança sem a barra, originalmente de onde vim, e ah! a dor e a delícia do bailarino iniciante. A vontade imensa de realizar, crescer, criar, evoluir nos agarra pelos cabelos, beija a nossa boca e nos larga, sem aviso, fracos no chão. Depois de anos não apenas crescendo no pole dance, mas ministrando aulas e sendo a referência de conteúdo da sala de aula, é estranho não ser boa de novo. Excitante, extenuante, frustrante, a melhor sensação do mundo. Volto ao aprendizado, entretanto, com outra cabeça, outros olhos, mais amadurecida. Feliz, até mesmo com o fracasso, pois o erro indica movimento. Errar me dá sangue no olho, me estimula e multiplica minha disciplina, minha determinação para conquistar algo.


Muitas alunas chegam pra primeira aula dando o aviso: "Pró, eu não sei nada! Sou dura! Nunca dancei!" E eu sorrio toda vez, porque é claro que elas não sabem. É normal que a gente não entenda algo, que a gente não consiga de primeira. O que vai fazer toda a diferença, no fundo, é como e de que forma você vai passar a lidar com suas fraquezas, com o seu processo.


Pole dance é uma atividade fora da curva. Quem pisa em um estúdio de pole e se dispõe a despir a alma (e o corpo) ao lado de uma barra, já foge minimamente do convencional. Primeiro passo dado, nada mais justo do que colher os frutos da rebeldia de se desafiar constantemente, às vezes em meio a uma rotina turbulenta, em meio a um casamento falido, à solidão da vida adulta. Quando me abordam logo após as primeiras aulas, perguntando se vale a pena, se “levam jeito”, a minha resposta é sempre a mesma. O mais difícil já foi feito; você está aqui. Agora, persevere. Fique. Erre, aprenda, erre de novo, não se canse do novo. Não se contente com o mediano. Mantenha-se em movimento físico, mental e de alma. Vale a pena.


 
 
 

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